Home

Artigos

O “fator humano”

Postado em: 17/04/2017
Imagem Artigo

Todo projeto de uma edificação deve ser elaborado pensando-se no conforto e na segurança dos seus ocupantes.Entre as medidas necessárias para se alcançar um desses objetivos que é a segurança das pessoas, deve-se levar em consideração o comportamento delas frente a uma situação de incêndio ou de outra emergência, chamado de “fator humano”, que pode ser dividido em duas partes: O comportamento ou as reações humanas a um incêndio e o comportamento humano durante a ocupação normal da edificação:

1. Reações humanas a um incêndio.

As reações humanas típicas a um incêndio ou a um perigo podem ser bem diversas e condicionadas por um mecanismo fisiológico que identifica com base em experiências cognitivas anteriores ou de conhecimento adquirido através de informações e de relatos. Estas reações, de uma forma bem básica, podem ser identificadas assim: Ação descontrolada da maior parte das pessoas de procurar uma saída. Esta é a causa maior de acidentes e fatalidades num incêndio. É o “efeito manada”, que se caracteriza por pessoas correrem descontroladamente numa ou em várias direções, muitas histéricas e aos gritos, sem saber se realmente é a direção correta para se sair da edificação, induzindo pela movimentação que outras pessoas sigam pelo mesmo caminho. É o que aconteceu na boate Kiss, quando quase uma centena de pessoas morreu asfixiada nos banheiros do fundo, masculino e feminino, pensando que lá havia uma saída para o exterior. Seria falha da sinalização ou o desconhecimento do local?


Pessoas com treinamento sabem como se comportar e tomar as decisões acertadas. Para que a desocupação seja um processo controlado, rápido e seguro, seguindo os padrões das instruções previamente recebidas, quer por treinamentos ou exercícios simulados, essas pessoas reagem correta e rapidamente à situação de emergência. O alarme, a sinalização e a iluminação de emergência nestes locais de reunião de público são fundamentais para a mobilização rápida e segura para a desocupação da edificação; A paralisação total de pessoas. Muitas pessoas ficam praticamente inertes sem uma capacidade individual de tomar qualquer decisão, como uma resposta fisiológica ao medo e ao pavor com os primeiros sinais de um incêndio. São pessoas que devem ser retiradas e atrasam toda a mobilização para a desocupação.

2. O comportamento humano durante a ocupação da edificação.

O comportamento humano durante a ocupação da edificação constitui um fator decisivo para se evitar um princípio de incêndio e que faz parte da cultura da população do país. Após a ocupação da edificação geralmente não são observados os requisitos mínimos de segurança de mantê-la sempre nas condições originais de projeto, para que as saídas de emergência e todos os equipamentos estejam sempre em condições normais de utilização e operação. Há uma irresponsabilidade total nesse sentido. O comportamento humano durante a ocupação de uma edificação é a grande causa de incêndios, através de obstruções nas saídas de emergência, equipamentos de combate sem manutenção correta, modificações no leiaute, mudança de ocupação, gambiarras elétricas, falta de treinamentos para situações de emergência e outros. Deve ser acrescentado ainda que cada pessoa tem suas características individuais, como idade, dificuldade de visão e audição, locomoção, que pode ser parcial ou total, mulheres grávidas, crianças, e todos estando sujeitos à exposição de fumaças, que obscurecem as saídas, aos gases que intoxicam, ao calor e às próprias chamas que queimam. Ainda, geralmente há uma demora por parte das pessoas em ser iniciada a reação ao incêndio com a saída imediata e organizada da edificação, para pegar objetos de uso pessoal, dar telefonemas e até desligar o computador. É evidente que há outros fatores importantes apresentados neste livro, e o conjunto de alguns deles, de acordo com a ocupação, é que dará a segurança mínima necessária contra o fogo para os ocupantes de uma edificação. Logicamente que controlar centenas ou milhares de pessoas concentradas em locais públicos não é uma tarefa fácil, pois os outros fatores importantes, como rotas de saídas de emergência desobstruídas, protegidas, iluminadas e bem sinalizadas, com localizações e capacidades compatíveis com a população para uma desocupação rápida, fácil e segura, são necessários.

Além disso, é necessário ter sistemas de detecção, de alarmes e de combate ao fogo, e controle dos materiais de revestimento, da fumaça e dos gases gerados pela combustão, e uma brigada de incêndio bem treinada e atuante. Em edificações, como hospitais, onde há pessoas inconscientes ou imobilizadas em camas que dependem de outras pessoas para serem removidas devem ter áreas de refúgio nos próprios pavimentos, que é a melhor solução de proteção para esse tipo de ocupação. Em casas noturnas a reação ao fogo pode também ser lenta, pois muitas pessoas poderão estar sob os efeitos do álcool, drogas, luzes fortes intermitentes e som alto. A maioria das pessoas que sobrevive às situações de emergência não é a mais forte e jovial, mas a que está mais consciente e preparada de como agir nessas situações. O ideal é que a edificação tenha um plano de emergência, uma tarefa da brigada de incêndio, que proporcione o treinamento para situações de emergência. 

Prevenir é a melhor solução!

Comentários


Roberto Theobald - 27/04/2017 15:52
No texto existe a citação "É evidente que há outros fatores importantes apresentados neste livro..." mas não faz referência à citada bibliografia. De que livro está sendo falado? Como é possível obter acesso a ele? Obrigado Roberto Theobald


INCÊNDIOS EM COZINHAS DOMÉSTICAS

Postado em: 20/03/2017
Imagem Artigo

O homem convive com o fogo desde os primórdios da civilização e é um aliado importante no seu dia-a- dia. Conseguiu criá-lo, dominá-lo e utilizá-lo para aquecimento, iluminação, cozimento, geração de energia, etc., mas quando o fogo foge do controle transformando-se num incêndio, ele pode causar lesões, mortes e grandes prejuízos materiais.

A vida moderna aumenta os riscos de incêndio, pelas maiores concentrações humanas, edificações muito altas ou horizontais de grandes áreas e muito próximas, além da parafernália de máquinas e equipamentos de todas as espécies. O fogo sempre irá conviver com o homem, mas que seja em harmonia, e,para que isso aconteça, ele deve ser sempre controlado para que esta relação não seja quebrada.

Neste artigo serão considerados apenas os incêndios em cozinhas. Lembrem-se, em cozinhas domésticas, comerciais ou industriais através de fogões a gás o fogo estará sempre presente, mas deve ser sempre com controle.

O artigo será dividido em duas partes:

Parte 1: Incêndios em cozinhas domésticas;
Parte 2: Incêndios em cozinhas comerciais e industriais (programada para o mês de março).

1 - INCÊNDIOS EM COZINHAS DOMÉSTICAS

Causas:
Um botijão de gás com vazamento ao lado do fogão (um absurdo, mas ainda muito comum), mangueira de plástico passando por trás do fogão, panela com óleo de cozinha esquecida com a chama ligada (maior causa dos incêndios). Disso tudo, pode-se concluir que o fator humano (as falhas humanas) é o principal motivo para a ocorrência de incêndios.

Como combater:
Fixando-se somente no caso de uma panela ou fritadeira com óleo superaquecido em chamas o que fazer para extinguir o fogo:

1. Não jogar água sobre o óleo em chamas sob-hipótese alguma, porque o resultado é uma explosão de chamas para todos os lados da cozinha;
2. Desligar o gás imediatamente, no fogão ou no botijão;
3. Abafar o fogo com um pano grosso molhado, tipo uma toalha.

Seja o primeiro a comentar!

Para jamais se lamentar

Postado em: 23/02/2017
Imagem Artigo

É cultura de o brasileiro tentar gastar o mínimo possível, muitas vezes até de uma forma ilegal, em ações absolutamente essenciais, como na elaboração de projetos e na manutenção posterior das instalações, somente para citar duas, especificamente no caso de instalações de proteção contra incêndios.

A elaboração de projetos de proteção contra incêndios não são meros desenhos num papel, mas sim um programa de elaboração e execução de projetos arquitetônico, estrutural, hidráulico, elétrico, etc., com pranchas de desenhos, cálculos, memoriais, etc., baseados em normas, bibliografia e conhecimentos técnicos adquiridos em cursos de arquitetura e de engenharia. Por trás de tudo têm ciências muito elaboradas, muitas complexas, outras não, mas que exigem conhecimentos técnicos mínimos. Portanto, um projeto de proteção contra incêndios é uma questão muito séria, que deve ser melhor pensada e resolvida pelos responsáveis e pelos empreendedores.

Agora, fazer e executar um bom projeto de proteção contra incêndios não é o fim do caminho da proteção da edificação, mas sim somente o começo. Deve haver um plano de proteção contra incêndios, com inspeções e testes periódicos, e as manutenções preventivas e corretivas programadas e necessárias. O plano deve fazer parte do projeto de proteção e ser elaborado e executado por firma especializada ou profissional legalmente habilitado e com experiência na área.

Fogo não é brincadeira!

Comentários


Rodrigo Gomes - 25/02/2017 21:53
Este artigo vem mostrar mais uma vez a realidade de como a maioria trata um assunto tão sério. Essa pauta discutimos constantemente entre nos, engenheiros da área aqui na empresa. De fato é uma barreira a vencer e não somente fazer ajustes, mais sim, tentar mudar uma cultura onde a maioria de empresários acham que o sistema é somente custo. Precisamos mudar a cultura desde a máquina do Governo, que não investe em treinamentos e conhecimento. Também precisamos mudar a cultura de vários projetistas e ainda mais de instaladoras, que além de não serem qualificados para tal disciplina, junta com projetos precários e com mão de obra sem conhecimento técnico, aplicando materiais não conforme e sem certificações, além de agredirem as nbr, atropelando todo um estudo desenvolvido e testado para esse tipo de sistema. Espero que nós possamos dar sequência no legado em que a TB vem deixando nesses vários anos, e que um dia possamos ver o SCI, tratado com mesmo grau de importância que trata se o bem mais valioso deste país(carnaval e futebol). Obrigado a equipe TB por contribuir e ser um dos agentes de mudança em uma área tão pouco explorada em nosso território. Atenciosamente Rodrigo Gomes Baken Engenharia


O incêndio trágico na Boate Kiss

Postado em: 26/01/2017
Imagem Artigo

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, RS, ocorrido na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013, se tornou um divisor de águas na segurança contra incêndios no Brasil e, certamente, no mundo. Há milhares de espaços de reunião de público ainda no Brasil que devem receber adaptações e melhoramentos para aumentar a segurança contra incêndios dos seus frequentadores, a maioria deles são espaços pequenos difíceis de sofrer modificações nos seus leiautes sem inviabilizar o negócio. Outros também podem ser inviabilizados pelo elevado custo e perda de espaço interno para atender às modificações exigidas pela nova legislação.

O comentário a seguir será considerando as proteções contra incêndio existentes nesses locais de reunião de público, isto é, as proteções mínimas necessárias para se evitar que o fogo aconteça nesses ambientes durante suas ocupações. Esses locais se caracterizam por ter uma alta densidade ocupacional de frequentadores, com música estridente e ingestão de bebidas alcoólicas, tendo como consequência a necessidade de cuidados mais rigorosos com a segurança das pessoas.

Quanto a isso, as medidas de proteção recomendadas e comentadas sucintamente abaixo são algumas medidas de proteção que deveriam ser atendidas na boate Kiss, e que se apresentam em muitos outros locais do nosso Brasil:

Lotação dos ambientes.
Como era um espaço de reunião de público e sempre com grande afluência apresentava uma lotação sempre acima do permitido pelas normas brasileiras. Não havia tal controle;

Saídas de emergência.
Possuía somente uma saída de emergência centralizada na fachada frontal totalmente inadequada para a desocupação rápida e segura da enorme população. Como havia três ambientes e com desníveis entre eles, a circulação interna era problemática. Havia guarda-corpos internos para organizar o acesso aos bares, bem como o acesso e a saída da boate. Tornaram-se verdadeiros obstáculos para a circulação no sentido da saída, com o acúmulo de pessoas antes da porta de saída, com quedas, pisoteamento e o consequente entravamento da circulação para o exterior. A boate deveria ter dois corredores laterais com saídas para a rua, além da entrada principal. Tal providência jamais seria cogitada porque roubaria um espaço interno muito nobre e nem a legislação previa saídas de emergências com distâncias mínimas entre si. Até hoje ainda não prevê! Isto é um erro fatal;

Sinalização e iluminação de emergência.
Os sistemas de sinalização e iluminação de emergência não eram adequadas para permitir uma saída organizada com rapidez e segurança por ocasião do incêndio. As luzes de emergência só foram acionadas quando houve a queda da luz, momento em que a fumaça já tomava conta dos ambientes;

Controle de fumaça.
A lei estadual é claramente omissa sobre a exigência de sistemas de controle de fumaça em ambientes de reunião de público. Não havia detectores de fumaça, botoeiras de alarmes e nem alarmes, alertadores ou avisadores sonoros e visuais. Como era um prédio de um pavimento o sistema seria bem simples. A boate Kiss era totalmente fechada nos seus quatro lados e na cobertura, ótima para aprisionar o calor e a fumaça de um incêndio;

Materiais de revestimento.
A boate foi revestida internamente nos locais próximos aos dois palcos com material de isolamento acústico totalmente inapropriado relativo ao comportamento ao fogo, pois era altamente inflamável e liberava gases tóxicos, pois continha poliuretano na sua formulação, e não continha aditivo retardador de chamas;

Vigilantes patrimoniais.
Os vigilantes patrimoniais, que há em profusão nesses ambientes, não tinham treinamento de brigadista de incêndio. Isso deveria ser obrigatório, no mínimo. Eles não estavam preparados para uma situação de emergência de incêndio, demorando em liberar a saída para verificar primeiro o pagamento das despesas;

Artefatos pirotécnicos.
O uso de artefato pirotécnico em ambientes fechados, e principalmente em boates, deveria ser proibido, pois é um comportamento de risco inaceitável. Qualquer falha no comportamento pode gerar um incêndio;

Equipamentos de combate a incêndio.
Os equipamentos de combate a incêndios, no caso somente extintores de incêndio, não estavam totalmente em condições, pois alguns estavam vazios. Como pode se verificar, não havia uma preocupação maior com a segurança dos ocupantes. Nestes locais todo o cenário, bem como os equipamentos de combate a incêndio, deve ser inspecionado antes que sejam abertas as portas, no caso a porta, para a entrada do público;

A legislação do Estado.
A legislação do Estado do Rio Grande do Sul possuía claras deficiências de regulamentação, com normativas pouco precisas com definições e especificações genéricas, desatualizadas e sem a incorporação de questões fundamentais de segurança contra incêndio, além disso, formada por aditivos regulatórios sem uma organização sequencial do texto e algumas tecnicamente inadequadas, que geravam possibilidades de interpretações diversas. Um projeto de nova legislação estava para análise e aprovação na Assembleia Legislativa “dormindo” desde 1999. Em 2013 elaboraram e aprovaram um projeto que exatamente 11 meses após foi sancionado. Pode isso?

Estrutura de fiscalização.
As ações proativas de fiscalização são proporcionais aos recursos humanos e ao aparelhamento disponibilizados para esta tarefa. O Corpo de Bombeiros não tem na sua estrutura um setor técnico de engenharia para a análise de projetos e nem um setor de fiscalização suficiente para atender a demanda existente. A estrutura atual da corporação deveria ser reformulada, aumentada e regionalizada para evitar as demoras nas análises dos projetos. Isto se torna premente e é uma responsabilidade do governo do Estado do RS. Haja paciência!

De uma forma bem sucinta foram apresentados esses tópicos importantes sobre a tragédia ocorrida. A partir desta lista pode ser analisada a segurança de outros ambientes similares existentes no Brasil.

Comentários


André Filipe - 31/01/2017 10:55
A Boate Kiss serve de alerta para as demais casas de show, mas no Brasil temos o crescimento de igrejas, sendo construídas sem essas mesmas preocupações lamento que são pouquíssimos religiosos que tem essa preocupação com os seus fiéis. O senhor, sendo um referencial nessa área poderia fazer um artigo explicando a importância de se preocupar com a segurança dentro das igrejas. Parabéns pelo excelente texto.


ronald patric de souza rodrigues - 29/01/2017 00:44
Professor quando o senhor vai em Macapá (AP) ministra curso de instalações hidráulicas de combate a incêndios em edificações?


Incêndio na Cidade do Samba – Rio de Janeiro, Brasil

Postado em: 06/06/2015
Imagem Artigo

Será feito um breve comentário sobre o incêndio que ocorreu na Cidade do Samba, no Rio de Janeiro, no mês de fevereiro de 2011, um mês antes do tradicional carnaval carioca. Sem visitar o local, nem antes e nem após o incêndio, mas analisando à distância todas as medidas de segurança contra incêndios que deveriam ter uma edificação com esta ocupação, para quem conheceu o local antes e após o incêndio talvez possa tirar algumas conclusões sobre este comentário.

Em primeiro lugar vale destacar: são usados produtos altamente combustíveis, dos mais diversos tipos e em grandes quantidades, como plásticos, espumas, tecidos, colas, tíner, isopor, papelão, etc., e muitas pessoas nos ambientes. Isto já é um sinal de alerta para as medidas de segurança contra incêndio que devem ser adotadas no local. 

Talvez até a edificação estivesse de acordo com a legislação local, mas não é uma questão de legislação, mas sim de segurança contra incêndio, pois as legislações são gerais e não podem abranger todas as situações de ocupações específicas, e, muitas vezes, apresentam lacunas na própria legislação. Aí surge uma palavra fundamental neste contexto: cenário. Todo projeto de edificação ou área de risco deve ser analisado sob o ponto de vista de onde pode ser iniciado um princípio de incêndio. Criar simulações ou cenários de locais com possibilidades de focos de fogo e analisar: Como este fogo poderá crescer? Como ele poderá se propagar para outros locais? Quais as possibilidades de desocupação da edificação (rotas de saída)? Quais são os meios de combate ao fogo? Os ocupantes receberam treinamento para a segurança contra incêndio? E outras questões específicas ao local poderiam ser analisadas para cada caso. Somente após analisar estes cenários o projeto da edificação poderia ser concluído e liberado para a construção. Estão sendo analisadas as medidas preventivas de segurança contra o fogo que acontecem durante o projeto da edificação. Mas, isto não é suficiente. Como será a qualidade da construção e das instalações? Como será a ocupação? Como será a pós-ocupação? Serão mantidas todas as condições de ocupação originais do projeto? Pode ser levantada a questão: Não há fiscalização do poder público responsável! Esta é a grande questão no Brasil. Onde está a responsabilidade do brasileiro em realizar sempre o melhor, o mais adequado por vontade própria como um legítimo cidadão brasileiro, sem descarregar tudo sempre o poder público. Se os brasileiros não fizerem as suas obrigações mínimas de cidadão, obedecendo as leis e determinações legais, no mínimo, certamente estas situações ou possíveis tragédias continuarão a acontecer. Cada um fazendo a sua parte, o todo estará sempre organizado.

Mas, que medidas de proteção seriam necessárias para um local com esta ocupação?

1.  Compartimentação. A compartimentação do local com paredes corta-fogo, separando os ambientes por atividades, de tal forma que uma atividade não possa provocar o fogo em outra de grandes combustibilidade e inflamabilidade, como separar os serviços de corte e solda de metais, de outros, como corte, costura, cola e montagem de produtos altamente inflamáveis, como plásticos, tecidos, espumas, papeis, etc. Isto é básico;

2.   Treinamento. Outra medida básica e fundamental é o treinamento dos ocupantes sobre as medidas de segurança para se evitar um possível foco de fogo, fazer o combate ao fogo e permitir uma desocupação rápida e segura da edificação;

3.   Controle da fumaça. Como é uma edificação baixa é importante fazer o controle da fumaça através de aberturas no teto, para evitar a sua propagação horizontal e descendente, pois ela é altamente tóxica e densa, comprometendo a saída com segurança dos ocupantes e, também, o combate ao fogo. Além disso, a propagação da 

fumaça pode provocar novos focos de fogo em ambientes contíguos sem compartimentação;

4.    Sistema de chuveiros automáticos. O sistema de chuveiros automáticos apresenta uma grande vantagem: é automático, isto é, independe da ação humana. Ele tem três funções: extinguir o fogo, evitar a propagação do fogo e acionar o sistema de alarme. No caso, talvez o sistema de chuveiros automáticos não fosse capaz de extinguir o fogo, mas, atenderia a sua segunda função de evitar a sua propagação até que o combustível se autoextinga;

5.   Cozinhas. Os serviços de cozinhas devem ficar totalmente separados dos demais ambientes, pois, além do perigo de provocar um princípio de fogo, há a questão da higiene, também;

6.  Instalações elétricas. As instalações elétricas devem passar periodicamente por rigorosos controles realizados por engenheiros eletricistas, para evitar gambiarras, ligações mal executadas, sobrecarga em algum ponto, rede de distribuição sempre organizada, etc.

Outras medidas preventivas também deveriam ser tomadas, como sinalização e iluminação de emergência, sistemas de detecção e alarme, sistema de mangotinhos, vistorias periódicas, etc.

Comentários


Janary Formigosa - 21/11/2016 20:38
Caro professor,gostaria de saber quando poderia realizar um curso aqui em Belém do Pará.


marcos - 07/05/2016 15:29
Professsor Telmo, se possível gostaria de saber em que ano o senhor publicou a apostila de instalações prediais hidráulicas e sanitárias da pucrs, pois estou utilizando seu conteúdo no meu referencial. Dede já agradeço sua atenção. Um abrço.


Caio Cesar de Oliveira Nunes - 03/11/2015 16:32
Excelente artigo Telmo, parabéns! Infelizmente o que se constata após investigações e apurações de fatos envolvendo um incêndio no Brasil é o descaso com a vida humana por parte de todos os envolvidos, normalmente em prol do lucro financeiro. Isto ocorre desde a concepção do projeto arquitetônico até a execução dos sistemas concebidos para a prevenção e combate ao incêndio.


Uma ideia prática, econômica, simples e realmente eficaz!

Postado em: 06/06/2015
Imagem Artigo

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, RS, se tornou um divisor de águas na segurança contra incêndios no Brasil e, certamente, no mundo. Há milhares de espaços de reunião de público ainda no Brasil que devem receber adaptações e melhoramentos para aumentar a segurança contra incêndios dos seus frequentadores, a maioria deles são espaços pequenos difíceis de sofrer modificações nos seus leiautes sem inviabilizar o negócio. Outros também podem ser inviabilizados pelo elevado custo das modificações exigidas pela legislação.

O comentário a seguir será somente para a situação de um incêndio que já está acontecendo num ambiente de reunião de público, isto é, a proteção ativa ou de combate ao incêndio, sem levar em consideração as suas causas.

Quatro dias após a tragédia de Santa Maria, estive no interior da boate Kiss realizando um levantamento técnico, junto com mais dois colegas engenheiros a pedido do CREA-RS, onde pude constatar o verdadeiro horror que foi aquele incêndio.

A maior parte dos ocupantes do recinto naquela noite eram jovens universitários festejando formaturas e outros eventos, numa verdadeira confraternização universitária. Este incêndio criou marcas indeléveis nos familiares e em todos os brasileiros por sua brutalidade, e também pela irresponsabilidade dos proprietários e dos órgãos públicos que tem a obrigação institucional de zelar pela segurança das pessoas. Todos, de certa forma, foram omissos com as suas obrigações, mas certamente não serão responsabilizados por isso, como é costume acontecer no Brasil. Infelizmente!

Três fatores decisivos conduziram a esta tragédia, fora outros que também poderiam ser citados, como revestimentos internos inadequados, obstáculos diversos e desníveis existentes no interior, e outros, a falta de:

 

  • Equipamentos adequados para se combater o foco de fogo;
  • Saídas de emergência em número e localização adequadas para a desocupação rápida e segura do ambiente;
  • Brigada de incêndio.

 

A falta de equipamentos adequados é o principal motivo que o fogo não pode ser extinto imediatamente. Talvez um extintor de água de 10 litros poderia apagar o fogo, mas não havia tal equipamento disponível no local.

Havia somente uma saída de emergência com problemas de acesso de dentro para fora e inadequada para uma população de várias centenas de pessoas. Além disso, o ambiente era totalmente fechado no seu perímetro e sem saídas de fumaça.

A vigilância patrimonial, que sempre tem em abundância nesses locais, não tinha treinamento de brigadista de incêndio e nem um plano de emergência para tal situação.

Em vista disso já se podem sugerir algumas soluções extremamente simples, como seguem:

 

Equipamento de combate ao fogo

Faço uma sugestão de equipamento para esses locais, que é prático, econômico, simples e eficaz: Uma mangueira de jardim de 20 m ou 30 m em cada ambiente. Por quê?

O horário de funcionamento desses locais geralmente é das 22h às 6h da manhã. Neste horário o consumo de água em qualquer cidade é extremamente baixo, fazendo com que a pressão na rede pública é a máxima do dia. Bastaria instalar uma mangueira de jardim de plástico numa caixa embutida na parede a 50 cm do piso, com sinalização indicativa, ligada diretamente ao hidrômetro da casa. Ter-se-á uma vazão muito boa e interminável devido à pressão no horário. Além disso, todas as pessoas sabem usar uma mangueira de jardim, equipamento que não oferece perigo de operação e de baixíssimo custo de instalação. Logicamente a legislação local poderá exigir outros equipamentos que obrigatoriamente deverão ser instalados. Esta mangueira de jardim sugerida é um equipamento alternativo, independente do que for exigido pela legislação local.  Mas, se houver a infeliz coincidência de faltar água na rede da concessionária no horário, há ainda a alternativa de se usar os extintores de incêndio, que são obrigatórios pela legislação a ter em cada ambiente, para controlar ou extinguir o foco de fogo;

Local de reunião de público

Todo local de reunião de público a partir de determinada população, que para o Estado de São Paulo a partir de 2014 é obrigatório para mais de 300 pessoas, deve ter duas saídas de emergência, no mínimo, afastadas 10 m uma da outra, no mínimo. As pessoas sempre devem ter a alternativa de encontrar uma saída no sentido oposto ao do local do fogo, estejam onde estiverem localizados no ambiente. Isto é lógica pura! Para mais detalhes ver o item 8.3.1, do capítulo 8 deste livro.

Vigilantes patrimoniais

Os vigilantes patrimoniais recebem treinamento para a segurança patrimonial, além disso, todos deveriam receber obrigatoriamente também, um treinamento intensivo teórico-prático de brigadista de incêndio. Isto é o mínimo que poderia se desejar! Todo dono de empreendimento de reunião de público deveria contratar vigilantes patrimoniais com esta formação mínima. Isto melhoraria em muito a segurança de todos os frequentadores do local

 

Como se pode ver do exposto acima, os problemas e as consequências podem ser grandes, mas na maioria das vezes as soluções podem ser muito simples. 

Seja o primeiro a comentar!